EU VENCI – RELATO DE UMA MENDIGA
- João Ribeiro

- 6 de set. de 2022
- 6 min de leitura
Minha última experiência terrena foi muito sofrida, mas ao final, valeu a pena.

Nesta última passagem pela terra como encarnada fui uma mendiga a vida inteira.
Nasci nas ruas, filha de mendigos com mais três irmãos.
Nós erámos em cinco e eu era a mais nova.
Tão mais nova que, quando eu nasci, meus irmãos já tinham mais de 30 anos cada.
Nunca me deram importância e muito menos se preocuparam comigo.
Depois que eu nasci, meus pais viveram mais alguns anos, por já estarem velhos quando minha mãe engravidou. Ela tinha 42 anos e uma saúde muito debilitada.
Nem ela sabe como aguentou uma gravidez já em idade avançada e sem nenhum recurso para se manter. Comiam quando dava e por muitas vezes, ficavam mais de um dia sem comer.
Nasci em hospital público e meus pais não sabiam meu sexo até que eu cheguei ao mundo.
Meu pai estava presente no meu nascimento, pois apesar de morarem nas ruas em meio a miséria e a violência, viveram juntos e unidos a vida toda.
Foi uma surpresa e uma decepção quando viram que eu era uma menina, pois como mulher, as chances de se dar bem nas ruas, era bem menor.
Ficamos no hospital somente mais um dia após o parto e logo estávamos nas ruas.
Foi sempre muito sofrido, mas de vez enquanto, quando a fome apertava mesmo, aparecia um bom samaritano para nos ajudar com donativos e outras coisas que nos mantinham vivos.
Como viam que o casal tinha um bebe recém-nascido, muitos voltavam em outras oportunidades com roupinhas e kits para bebes. O que era muito bem recebido por minha mãe.
Meu pai que já havia sofrido com o vício do álcool há muito tempo não bebia, saia pela manhã ou muitas vezes, até pela madrugada, dependendo do clima, para pegar recicláveis, na intenção de ganhar uns trocados.
Minha mãe que jamais foi viciada, até por estar em uma situação pós-parto, passava o tempo todo cuidando de mim.
Quando tinham alguma coisa para cozinhar, ela montava uma fogueira com qualquer coisa que encontrasse, para queimar as panelas e cozinhar algo.
O tempo foi passando e eu fui crescendo.
Quando eu tinha 10 anos de idade, perdi minha mãe que ficou muito doente, passou alguns dias internada e não aguentou.
Com isso, passei a ficar mais tempo com meu pai, para não ficar sozinha na rua.
Onde ele ia, eu estava ao seu lado, com nosso cachorrinho.
Isso mesmo, desde que eu tinha 3 anos de idade, fiz amizade com um cachorrinho, seu nome era Tob e nós erámos inseparáveis.
Passávamos a maior parte do tempo procurando e juntando recicláveis. Aprendi a localiza-los e aproveita-los, vendendo nos pontos pelos quais passávamos.
Trabalhando juntos, aumentamos um pouquinho nossa renda, mas mesmo assim, não era o suficiente para sair da rua.
Eu nunca estudei, não aprendi a ler e escrever. Minha vida era lutar diariamente para conseguir o pão de cada dia e para não morrer de fome ou frio.
Nossos dias frios eram terríveis. Minha nossa, como passei frio. Por vezes, dormimos todos juntos e agarrados para suportar noites frias.
Aos 15 anos, em uma noite extremamente fria, perdi meu pai. Ele dormiu me protegendo, mas não aguentou a baixa temperatura e morreu dormindo.
Meu desespero foi tão grande que, fiquei por dias na inércia, parada no mesmo lugar, sem sair para conseguir dinheiro e muito menos me alimentar.
Depois disso, fui voltando ao normal.
Sabia o que era necessário fazer, pois havia aprendido com ele.
Todo dinheiro que eu ganhava dava para alimentar eu e o Tob, pelo menos uma vez por dia.
Era uma vida miserável, sofrida e solitária.
Não tinha amigos e muito menos com quem contar. Na verdade tinha, o Tob, que já era um cachorro velho e pouco tempo depois do meu pai, também partiu, me deixando ainda mais solitária.
Não entendia por que tudo isso acontecia comigo, mas também não ficava tentando entender ou encontrar sentido em tanto sofrimento.
Aos 17 anos conheci o álcool e o crack.
Nossa! Que sensação maravilhosa eu sentia quando usava crack.
Parecia que eu estava em outro mundo, vivendo outra vida. Aquela química entorpecia meus sentidos e eu não pensava em mais nada, só me deixava levar pela aquela onda de entorpecimento anestésico que era maravilhosa.
Fazia isso escondida para não ficar ainda mais vulnerável na rua.
Me relacionei com diversos homens, mas sempre usei preservativo que conseguíamos de graça, pegando em alguns postos de saúde ou recebendo por doações.
Vivi até os 57 anos nas ruas, bebendo e fumando pedra, e jamais engravidei.
Pelo menos neste sentido, sempre fui muito responsável.
Não queria pegar uma doença e muito menos ter um filho naquela situação.
Engraçado que eu jamais tive o sonho de sair daquela vida, parecia que eu tinha certeza que viveria naquela situação lamentável a vida toda.
Meu desencarne não foi sofrido, pois tive uma morte muito rápida e indolor. Eu também desencarnei em uma noite muito fria.
Eu havia fumado uma pequena pedra em uma noite muito fria, acabei sem me proteger corretamente e não mais acordei no mundo em que vivia.
Quando despertei, estava em outro lugar.
Um lugar que parecia muito com as ruas que morei. Também muito frio e tenebroso.
Ruas esburacadas, pontes em ruínas, casas e prédios escuros e sem vida. Lugar muito estranho, parecia ser um sonho ou estar em outra realidade.
As ruas tinham muitos mendigos que assim como eu, não estavam entendendo onde estavam.
Alguns haviam acabado de acordar ali e outros me disseram que já estavam ali há meses, mas não tinha ideia do motivo e muito menos que lugar era aquele.
Eu não passei muito tempo ali. Fiquei pouquíssimo, se eu fosse contar em dias, foram uns três.
Eu estava ali, mas sabia que não era o meu lugar. No terceiro dia, me bateu uma saudade da minha mãe e do meu pai, passei horas pensando neles, pois sabia que se eles estivessem comigo, eu não estaria perdida e desamparada.
Quando para minha surpresa e tomando um grande susto, eles apareceram para mim.
Eu estava andando sem rumo, tentando encontrar algo que me abrisse a mente e demonstrasse onde estava e percebi umas pessoas diferentes vindo em minha direção.
Quero dizer diferentes para o lugar onde eu estava e comparando-os aos que eu já havia encontrado.
Pessoas iluminadas e com sorrisos nos rostos. Por onde eles vinham passando, todos paravam para olha-los e admira-los.
Eu só percebi que eram eles quando estavam há alguns passos de mim, muito próximos.
Minha mãe foi chegando com um sorriso que eu jamais irei esquecer, abriu os braços e me chamou para um abraço.
Quando eu percebi que era ela, o baque e o medo foram muito grandes, mas senti uma onde de amor entrando pelo meu corpo e me fazendo chorar no mesmo instante.
Fiquei extremamente emocionada e me deixei cair em seus braços.
Um abraço tão forte e caloroso que eliminou qualquer sentimento de medo que eu estava sentindo.
Terminando seu abraço, veio meu pai, segurou o meu rosto com as duas mãos, passou a mão pelos meus cabelos ainda sujos, deu um beijo na minha testa e com os olhos marejados, me disse que eu havia conseguido cumprir a minha missão.
Me abraçou e choramos juntos.
Somente aí que eu entendi que havia deixado a vida na terra e que naquele momento eu estava desencarnada me encontrando com meus pais falecidos.
Não senti mais medo, na verdade, me senti muito bem, feliz e confiante.
Saímos juntos daquele lugar, levando mais alguns que precisam partir.
Fomos para um lugar lindo, iluminado, bem cuidado, cheiroso e florido. Onde as cores eram vivas e vibrantes. A água era cristalina e tudo parecia muito alegre. Senti uma nova onda de sentimentos positivos invadir o meu ser, que se encontrava extremamente debilitado.
Tomei banho, troquei de roupas, tomei água, me alimentei de frutas com cores e sabores inexplicáveis.
Neste lugar, passei alguns meses terrenos me adaptando a nova forma de vida. Na verdade, a verdadeira vida. A vida espiritual.
Me lembrei da vida que tive e do propósito dela. Sei que sofri demais, mas o sofrimento era justo e necessário.
Eu escolhi passar por tudo aquilo, assim como todo que sofre é por escolha.
Me senti bem e realizada por ter conseguido superar as dificuldades da vida encarnada, mesmo sabendo que por vezes escorreguei, mas não larguei o meu propósito.
Vivi exatamente o que tinha que ser vivido, talvez por algumas escolhas que tive enquanto encarnada, como o vicio, por exemplo, tenham deixado a provação ainda mais penosa, mas consegui superar e mereci o resgate rápido dos meus pais que já aguardavam ansiosamente minha partida.
Hoje, trabalho, também, no auxílio e resgate aos moradores de rua do nosso planeta.
Sei que nada é por acaso e ninguém passa pelo que não tem que passar. Aprendi isso vivendo a vida como ela deve ser vida e espero que você que acabou de ler essa mensagem, entenda que por mais difícil que seja sua vida, você é, e sempre será capaz de vencer as dificuldades e dar um rumo melhor para ela.
Não perca a oportunidade de fazer o melhor, com o melhor que você tem. Pois você só irá superar as tempestades, provas e expiações da vida, quando aprender a lutar e a superar seus próprios tormentos e desequilíbrios.
Nossas lutas nada mais são do que lutas internas, travadas interiormente conosco, na intenção de nos melhorarmos e eliminarmos as trevas que persistem em nossa caminhada evolutiva, quanto antes você conseguir se iluminar, mais rápida será sua ascensão e menos terá que sofrer.
Fica a dica.
Seja forte e grato à oportunidade de estar vivo, pois este é o melhor caminho para o sucesso.
NAVEGANTES DA ESPIRITUALIDADE
(RELATO ESPIRITUAL)




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