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O PERIGO DE SER INDISPENSÁVEL

  • há 8 horas
  • 3 min de leitura

Você se senta para tomar o café da manhã e, antes mesmo de o café esfriar, já resolveu cinco problemas.

Um filho não encontrou alguma coisa. Alguém do trabalho mandou mensagem. Existe uma conta que ninguém lembrou de pagar. Uma decisão precisa ser tomada. Um familiar quer sua opinião. E, naturalmente, procuram você.

Você resolve.


ser indispensável

Talvez até reclame.

“Se eu não fizer, ninguém faz.”

“Tudo sobra para mim.”

“Parece que ninguém consegue resolver nada sozinho.”

E pode até existir alguma verdade nisso.

Mas existe outra parte dessa história sobre a qual quase ninguém gosta de falar.

Apesar do cansaço, há uma satisfação estranha em ser a pessoa que resolve. Você tem coisas demais nas mãos, mas continuam procurando você.

Reclama que ninguém decide nada sem a sua ajuda, mas talvez estranhasse se, de repente, todos começassem a decidir.

Entendeu o paradoxo?

Às vezes queremos descansar justamente de uma função que também passou a dizer alguma coisa sobre quem somos.

Ser indispensável é sedutor.

Quando alguém procura você porque não sabe o que fazer, existe uma mensagem silenciosa ali: eu preciso de você.

E poucas coisas alimentam tanto nossa sensação de importância quanto perceber que alguém precisa da gente.

O problema começa quando ajudar deixa de ser uma atitude e passa a fazer parte da identidade.

Então você confere.

Pergunta.

Refaz.

Dá uma olhadinha só para garantir.

Antes de sair de férias, deixa instruções. Durante as férias, pergunta se está tudo certo. Se demoram para responder, imagina que alguma coisa deu errado.

E, quando descobre que resolveram tudo sem você, sente algo curioso.

Deveria ser um alívio.

Nem sempre é.

Porque talvez a questão nunca tenha sido apenas fazer as coisas funcionarem.

Talvez também fosse importante sentir que elas funcionavam porque você estava ali.

Isso não nasce necessariamente da arrogância.

Às vezes nasce do cuidado.

Da responsabilidade.

Do perfeccionismo.

Do medo de que algo saia errado.

Mas também pode existir algo mais profundo: você se acostuma tanto a ser indispensável para os outros que, quando ninguém precisa de você, já não sabe muito bem qual é o seu lugar.

É aí que ser indispensável começa a cobrar caro.

Porque sempre haverá mais alguma coisa para resolver.

Mais uma mensagem.

Mais uma decisão.

Mais um problema.

Mais alguém precisando de alguma coisa.

O mundo parece inesgotável em urgências.

Nossa vida, não.

E talvez seja por isso que algumas pessoas saibam exatamente do que todo mundo precisa e tenham tanta dificuldade para responder a uma pergunta simples:

“E você, como está?”

A resposta quase sempre vem pronta.

“Estou bem.”

Quem passou muito tempo sendo a coluna aprende a não balançar na frente dos outros.

Sustenta.

Organiza.

Aguenta.

Continua.

Só que existe um preço nisso.

Quem sempre oferece o ombro pode acabar descobrindo que nunca ensinou ninguém a perceber quando também precisava de apoio.

Não porque ninguém se importasse.

Talvez porque ninguém soubesse.

As pessoas acreditam naquilo que mostramos.

Se passamos anos dizendo que damos conta, não deveria nos surpreender que elas acreditem.

Existe ainda uma descoberta um pouco mais desconfortável.

As coisas continuam acontecendo quando não estamos presentes.

A reunião acontece.

Alguém encontra a informação.

O almoço sai.

Os filhos aprendem.

As pessoas se reorganizam.

Algumas coisas talvez não sejam feitas exatamente como você faria.

E tudo bem.

Talvez descobrir que o mundo continua sem a nossa intervenção constante não diminua nossa importância.

Talvez apenas coloque nossa importância no lugar certo.

Existe uma diferença enorme entre ser importante para alguém e precisar ser indispensável para alguém.

Ser importante aproxima.

Precisar ser indispensável aprisiona.

Um dia os filhos vão precisar menos.

A equipe vai aprender.

As pessoas encontrarão suas próprias respostas.

Alguns telefonemas deixarão de acontecer.

E isso não deveria ser uma derrota.

Talvez seja justamente o contrário.

Passamos tempo demais medindo nossa importância pela quantidade de pessoas que ainda não aprenderam a viver sem nossa ajuda.

No fim, talvez a pergunta mais difícil não seja se as coisas continuariam funcionando sem você.

Provavelmente continuariam.

A pergunta é outra.

Quando ninguém estiver precisando que você resolva alguma coisa, você ainda saberá sentar, em silêncio, e tomar o seu próprio café?

 

Paz e luz.

João Ribeiro

6 comentários

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Déa Marcia da Silva
há 5 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Tenho carregado muchiila dos outros, preciso muito cuidar de mim.

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há 3 horas
Respondendo a

Sim! É importante refletir sobre isso e escolher exatamente o que precisa ser carregado.


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Convidado:
há 6 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Esse texto foi certinho para mim. Gosto muito de escutar vc e ler o que escreve. Parabéns!!!!

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Bete Salomão
há 7 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Esse texto tão necessário pra todos, acredito. A vida em certas fases achamos ser indispensáveis, porém ninguém é isso. É exatamente ao contrário, somos dispensáveis quando a situação muda. E tudo bem!

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João Ribeiro
há 6 horas
Respondendo a

Verdade Bete. É exatamente isso que o texto nos mostra. Obrigado pela interação. 😍

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Convidado:
há 8 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Cida castro

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